Raimundo Botêlho
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Raimundo Botêlho

// O ARTISTA /// botêlho by botêlho


A ESQUINA DO MEU DESTINO

by Botêlho (11 de outubro de 1995)

Pintar, foi o que sempre sonhei. Pintar cada vez melhor tem sido uma agradável obsessão no cotidiano de minha atual vida artística.

Ao embarcar com destino ao Rio de Janeiro, em 1969, o fiz com um objetivo: tornar-me um artista reconhecido. Talento eu desconfiava que tinha, pois em Viana, minha terra natal no interior do Maranhão, a disputa pelos meus desenhos coloridos era intensa. Na infância fiz desses desenhos o meu ganha-pão.

No Rio, já casado e enfrentando as agruras de uma nova realidade, conheci o mestre Antenor Finatti com quem fui estudar na Sociedade Brasileira de Belas Artes, em 1976.

Ainda desconhecido no concorrido mercado artístico, montei ao lado do meu ateliê, no bairro de Jacarepaguá, uma pequena oficina de molduras e uma modesta “Galeria de Artes”; tudo muito simples. Foi este o jeito mais rápido que encontrei para prover, com relativa segurança, a sobrevivência da família.

No dia 16 de outubro de 1983 perdi tudo num incêndio que consumiu não só o meu ateliê como, também, a oficina, máquinas e inúmeras telas de clientes. Acossado e humilhando por fregueses que diante das cinzas ainda fumegantes do pouco que eu tinha, me acusavam de negligente e irresponsável por não ter seguro, caí num longo e penoso processo de depressão. Meus sonhos de artista estavam ali sendo sepultados. As privações só não foram maiores porque alguns amigos, que em mim confiavam, me ajudaram.

Em junho de 1984 vi no O GLOBO a foto de um pescador (Zé da Cabeça Branca, 60 anos de idade) acenando alegremente o seu chapéu após ter recebido do Dr. Roberto Marinho um barco a motor novinho em folha em substituição ao seu “Ganha-pão” naufragado em um acidente com um submarino em plena Baia de Guanabara. A alegria do pobre pescador que estava reconstruindo sua vida e o gesto fraterno do presidente das Organizações Globo me levaram – depois de tanto tempo afastado das artes – a registrar à cores a felicidade do Zé da Cabeça Branca. E o fiz inseguro, duvidando da minha própria capacidade. No verso do quadro escrevi uma dedicatória simples ao Dr. Marinho e lhe remeti uma carta relatando o motivo daquela homenagem. Nem coragem tive de, pelo menos, tentar entregar o quadro pessoalmente ao destinatário. Deixei-o na portaria do Jornal e me retirei. Para minha surpresa, dias depois fui procurado pela jornalista Sonia Biondo e fiquei sabendo que o Dr. Roberto Marinho ficara muito contente com a minha modesta lembrança. Fui entrevistado e no dia 24 de Junho de 1984, domingo, O GLOBO publicou, com chamada na primeira página, reportagem com fotografia do meu quadro e a narrativa da história da minha homenagem e do incêndio que marcou a minha vida. Logo a seguir soube que o meu quadro estava num lugar de destaque na sala da presidência do Jornal ao lado de valiosas obras de artistas internacionalmente famosos como Manabu Mabe, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Iberê Camargo, Pancetti, Volpi, João Batista da Costa, Guignard e outros de igual prestígio. A partir daquele momento meus sonhos renasciam com toda intensidade. Com a reportagem publicada pelo O GLOBO servindo de aval às minhas esperanças fui colocado na esquina do meu destino e dela parti ao encontro do futuro: recorri novamente a amigos, tomei dinheiro emprestado e voltei freneticamente às telas, às tintas.

Estou percorrendo um longo caminho, estudando, trocando idéias e experiências. Tenho me dedicado às pesquisas de materiais, formas e cores na incessante busca do aprimoramento. Meus trabalhos já marcam presença em algumas das mais importantes galerias de artes brasileiras e recentemente iniciei a venda de quadros nos Estados Unidos. E, para meu orgulho e satisfação maior o quadro do Zé da Cabeça Branca tem participado de Amostras Itinerantes do acervo artístico do Dr. Roberto Marinho.

Hoje, pinto a vida, a natureza e os humanos que a habitam. Sou o que se pode chamar de um pintor das ruas, das praças, dos cais e dos campos onde me sinto à vontade cercado de curiosos que me estimulam com seus elogios e me alertam com suas críticas humanamente bem intencionadas.

A partir das cinzas do meu ateliê e dos acontecimentos que se seguiram me tornei um ser humano melhor e conseqüentemente um artista mais sensível, porque sou do tamanho daquilo que tenho certeza de que posso e quero ser.

De tudo que aprendi, o mais importante é saber que ainda tenho muito a aprender, portanto, não posso esmorecer. Aos que me estenderam as mãos só tenho uma forma de agradecer: é não decepcioná-los; é seguir em frente; é alcançar o sucesso que eles sempre me desejaram.

É isto que vou fazer!